No post anterior eu mencionei que uma das coisas que eu quero é um “trânsito mais humano”. Isso parece é uma daqueles termos bem abertos, difíceis de definir, mas não, é bem fácil. Um trânsito mais humano é um trânsito onde a vida, onde o ser humano está sempre em primeiro lugar.
Um trânsito mais humano não é um trânsito onde os ciclistas pedalam dentro de um curral. A prefeitura faz parecer que foi dada prioridade à segurança do ciclista, e que a cerca está ali para protegê-lo. Se a vida humana tivesse de fato recebido a prioridade, a ciclovia teria sido projetada para manter uma distância razoável do talude e dos carros, mas ao invés disso os carros receberam a prioridade, quando a prefeitura decidiu não estreitar a pista em um só centímetro para construir a ciclovia.
E infelizmente a ciclovia não é um caso isolado. A EPTC parece particularmente se orgulhar de sua política de construir cercas para isolar as pessoas, como aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. A instalação desses gradis mostra como a EPTC sempre prefere encurralar pessoas a ter que enlargar um trecho de travessia ou encurtar o tempo que uma sinaleira fica aberta para os carros.

Veja o absurdo da situação acima. A EPTC encurrala os pedestres, forçando-os a fazer um caminho sinuoso e estreito para cruzar a rua. Se ao invés disso as faixas de pedestre fossem mais largas, ocupassem o mesmo espaço nos dois lados da pista, os gradis não seriam necessários. Um dos lugares onde o ridículo dessa ideia fica mais óbvio é a travessia entre o Iguatemi e o Bourbon Country. O trânsito de pedestres ali é tão intenso, e o curralzinho a eles reservado tão estreito, que é comum o fluxo de pessoas trancar. A EPTC justifica a instalação dos gradis justamente por causa das pessoas que se recusam a seguir essa lógica (e caminho) torta para atravessar a rua.
Trabalho perto da esquina da Carlos Gomes com a Anita Garibaldi. Para atravessar, o pedestre é forçado a esperar o raro momento em que a sinaleira está fechada para os dois lados do trânsito, o que ocorre por cerca de 15 a 30 segundos a cada 3 ou 4 minutos, dependendo da hora do dia. Se eu quero cruzar na diagonal, vou ter que esperar duas vezes. Preciso dizer qual foi a prioridade da EPTC ao projetar isso?
Em 2011 foram 1.378 pessoas atropeladas, e tenho certeza que parte desse número se deve ao planejamento carrocêntrico da EPTC, que por sua vez sempre vai dizer que esses foram causados pela imprudência do pedestre.
Não é imprudência, é indignação.
A Massa Crítica virou a polêmica da vez na imprensa portoalegrense. Lendo as matérias, e principalmente os comentários vinculados, parece que ninguém entende o que esse pessoal que sai para pedalar no meio da rua quer.
Alguns ditos jornalistas arriscam a escrever palavras sobre a motivação por trás das pedaladas, e acreditam que todo ciclista é basicamente um ludita que abomina qualquer coisa com um motor:
E o Massa joga aberto: é contra. Contra carros nas ruas. Contra motos e ônibus. Contra veículos motorizados. Exige espaço para ciclistas e apela até para jogadas politicamente incorretas, na tentativa de fazer valer seu ponto de vista. — Humberto Trezzi, no ZH do dia 31/12/2011
Outros, acreditam que pedalar é um ato de subversão do estado:
Ao fim e ao cabo, o que se esconde atrás do discurso de frases feitas e apelos politicamente corretos desses simpáticos anarquistas é a intenção de usufruir livres de obrigações, infringir com impunidade, desrespeitar em nome do respeito! — Fernando Motolla, no ZH do dia 08/01/2012
Um deles parece chegar um pouco mais perto da verdade:
As bicicletas de hoje nos atrapalham com a pretensão de ocupar o mesmo espaço dos carros, nossos brinquedos de adultos. — Moisés Mendes, no ZH do dia 08/01/2012
(A fonte única das citações acima não é mera coincidência)
Mas o que realmente querem os ciclistas? Num grupo tão horizontal e difuso como Massa Crítica, ou indo mais além, entre os ciclistas urbanos de Porto Alegre e sua região metropolitana, há pouca causa comum além do próprio ato de pedalar; cada indivíduo vai ter sua lista de reinvidicações, às vezes conflitantes entre si. É difícil saber o que todo mundo quer, mas eu tenho certeza de algumas coisas que ninguém quer:
Por incrível que pareça, quem pedala não quer arrancar ninguém de seus carros. O automóvel tem um papel importante na sociedade atual, e sua necessidade é inegável. Mesmo no país com a maior proporção de bicletas no trânsito, a Holanda, elas representam apenas 50% dos deslocamentos diários.
A Massa Crítica da última sexta feira de cada mês é uma situação exepcional, e nestes dias a pedalada ocupa toda a via por uma questão de segurança, mas isso não quer dizer que ninguém ali acredite que as ruas devam ser ocupadas por bicicletas o tempo inteiro. Em qualquer outra situação, os ciclistas devem se manter na pista da direita e respeitar todos os sinais de trânsito, para a segurança dele e de todos os usuários da via pública.
A ciclovia da Ipiranga vai ser um avanço, eu adoraria ver outra ser construída ao longo da terceira perimetral, e seria lindo poder pedalar na BR-116 com segurança, mas não é toda rua que precisa de infraestrutura específica para a bicicleta. A maior parte de Porto Alegre pode receber ciclistas sem nenhuma modificação.
Ok, talvez alguns dos participantes tenham posições políticas mais extremas, mas são poucos, e com certeza não é o sentimento geral do coletivo. A esmagadora maioria está feliz em viver em um estado de direito democrático e republicano, não pretende dar um golpe de estado, e cumpre as leis, no trânsito ou fora dele.
Agora que estabeleci o que os ciclistas não querem, o que afinal nós queremos? Em uma palavra, queremos respeito. Em várias:
Por vontade prória. Queremos que vais gente veja como o carro como usado hoje não representa liberdade, mas sim uma prisão. Queremos um transporte público de qualidade, para que as pessoas possam deixar seus carros em casa e ir trabalhar de ônibus, de trem, de bicicleta, a pé. Queremos que mesmo que você nunca ponha os pés num pedal, entenda que um trânsito com menos carros é melhor para todo mundo, inclusive para quem precisa do carro.
E queremos fazer isso hoje. A infraestrutura da nossa cidade não oferece condições ideais para a bicicleta, mas não queremos e não podemos deixar de pedalar por causa disso. Só precisamos de um pouco de respeito.
Se você tem um carro, por favor respeite o ciclista quando encontrar um. Não cole no fundo da bicicleta, e mantenha uma distância lateral de pelo menos 1,5m quando for ultrapassar, como manda o Art. 201º do Código de Trânsito Brasileiro.
Queremos que todo mundo veja que há muito mais do que carros no trânsito, há pessoas, há vida. Queremos um planejamento urbano que prioriza essas pessoas.
E claro, lembramos que dentro de cada carro também há uma pessoa. Lembre disso antes de acelerar demais, pondo em risco a sua vida e a de outras pessoas, antes de xingar alguém no trânsito.
Pronto, era isso. No fim das contas é bem pouca coisa. Ninguém quer as coisas absurdas que o ZH está escrevendo, não acreditem nisso. Acreditem no bom senso.